Saiu do carro tão rápido que quase atravessou a porta, desejou voar só pra não ter que esperar o elevador, a alteração é visivelmente notada, sua respiração ofegante denunciava que não dominava mais sua consciência. Deslizava nos corredores, aos trancos pulava de dois em dois os degraus, entrou em casa esbaforido e ligou o computador. Seu amigo estava online, sem nem mesmo dizer “Oi” começou a vomitar palavra no seu teclado:
- Tá decido, de hoje não passa...
- O que?
- Está me incomodando de mais, eu já agüento mais, fica martelando na minha cabeça o dia inteiro, me botando pra baixo como seu eu não fosse nada...
O amigo do outro lado lotou a tela de interrogações e tentou continuar, como não sabia o que escrever, teceu uma filosofia de folhetim, das mais baratas.
Antes mesmo de ler se dirigiu até o banheiro e se encarou no espelho por alguns segundos, mas não se via. Foi á sala, deitou no sofá deixando a TV falar sozinha, percebeu que em cada cômodo que entrava a culpa lhe perseguia. Se sentia incoerente, não podia acreditar que chegara ao auge da unificação entre amor e ódio. Na pia da cozinha lavou o rosto e quando viu seu reflexo distorcido no azulejo, tomou a decisão.
Voltou ao computador e digitou freneticamente:
- É agora!
- Do que você está falando? Não estou entendendo nada...
- Vou me matar! Não suporto mais essa dor e nem o que me tornei. Cansei de estar condenado a ser possibilidades não realizadas .
- Hey para de dizer bobeira!
- Não acredito mais no sentido que dei à minha vida, ou do sentido que me foge, preciso adquirir um modo de viver, mais apropriado, mais autêntico e justo comigo.
Nessa visão, confronto o absurdo e estabeleço o desejo de viver só quando puder ver um sentido maior no sofrimento. Decidi, vou aniquilar de vez essa minha forma de viver, serei diferente a partir de agora, chega de me lamentar para o travesseiro, basta de engolir as palavras e não mostrar para as pessoas o que sinto.
Existem pessoas que tem em mim uma influencia definitiva, muita coisa de minha vida foi construída em cima daquilo que me deram pra viver e por motivos diversos mau vejo essas pessoas, quando estou diante delas não sei nem o que dizer. Verdadeiramente existem pessoas que surgem para mostrar o que é ideal, de comportamento, de ser humano e me influenciam pelo exemplo, não pelo quão imperativo poderiam ser.
Hoje em dia as coisas andam tão esquisitas que tenho receio de dizer para as pessoas o quanto gosto delas, aí invento milhões de desculpas... Que não sei mais dizer, que não encontro maneira de dizer, que tenho vergonha, que estou muito ocupado e um dia, quem sabe, vou arrumar tempo pra fazer algo junto. De repente me dou conta que há mais o que fazer, não da mais tempo, é tarde e deixo as pessoas partirem.
Desse momento em diante aquele que começou a conversa não existe mais, quero aproveitar cada comento, chega de fazer das minhas redes sociais uma prateleira de amigos, chega de dizer que estou cansado, que não tenho tempo, vou gozar da minha companhia e da de quem mais quiser me acompanhar, vou me namorar, descobrir o que é meu nessa vivencia como outro, vou sair, dançar, rir e chorar. Viver tudo e não deixar que ninguém mais me anule ou me ofusque, principalmente eu mesmo!
Que esse suicídio, do que fui até então, não seja uma forma de morrer e sim tentativa desesperada de buscar vida, brincar com minha habilidade de quase ir e vir, fazer com que me sinta digno de estar vivo, descobrir dentro de mim um deus e assim despertar pra um novo caminho a ser trilhado, porque estou aqui de passagem, para melhorar e acrescentar algo de bom pra mim e para as pessoas que cruzam meu caminho.
Será que de tudo há concordância ou não na a minha maneira de encarar as coisas?
- Talvez, mas ao menos você já sabe o que não quer ser e isso sim pode mudar o sentido de sofrer.
- Sei que ao dormir vou morrer novamente e que amanhã ao despertar vou continuar procurar um novo eu, pois minha necessidade de viver é que me mata.