Como todos os mortais, já surfei nas ondas do amor e da paixão. Já peguei agradáveis marolas e emocionantes tubos, mas já quebrei a cara em recifes traiçoeiros. A paixão sempre me pareceu ser uma onda ótima, mas descobri que ela, em geral, tem um paredão por baixo que agente não vê.
Já me apaixonei pela pessoa errada, sim. Porque ela era a pessoa errada? Bem, porque seus valores eram outros e porque seu estilo de vida não combinava com o meu, pelo menos não naquela fase da minha vida. A cobrança era muito grande, bem maior que a minha capacidade de atender. Esse desequilíbrio deu origem a uns tombos que machucaram a alma. Só que a paixão era grande e levei tempo para compreender a realidade. O sistema límbico estava comandando tudo dentro de mim. O córtex, coitado, estava cochilando, amortecido pelo poder narcótico da paixão. Só quando ele acordou e tomou conta da prancha é que evitei os recifes pontiagudos da decepção amorosa. A relação terminou, e foi sofrido terminar. Mas hoje, de cabeça fria, fica claro que foi a melhor solução existente. Esse é apenas um exemplo de como o sentimento, quando não é auxiliado pela razão, pode provocar mais sofrimento que felicidade.
Mas eu prefiro mesmo é falar da situação oposta, quando a razão e a emoção estão em sintonia. Aliás, lembro-me de ter ouvido um amigo: “A felicidade acontece quando a razão e a emoção se encontram na realização de uma atividade prazerosa”. Quando a razão e a emoção se encontram na mais agradável de todas as atividades, ou seja, no amor, surge a glória.
Entretanto, o amor é um sentimento maravilhoso, mas frágil. Um poeta certa vez a comparou com uma bolha de sabão. Pense: uma bolha de sabão é uma coisinha brilhante, belíssima, com cores que se alternam. Flutua no ar e se eleva como se buscasse o infinito. Até que estoura...
E por que estoura a bolha de sabão? Porque é sensível demais, frágil demais. Muito mais leve que a realidade cotidiana, pesada e cheia de farpas cortantes. O amor é assim, e se não for conservado ao abrigo das farpas cortantes acaba por estourar mesmo.
Por isso eu gosto do substantivo feminino “intenção”, que significa a proposta de um ato, de um movimento deliberado – portanto, racional – em direção de um objetivo pré-definido. A vida de uma pessoa é cheia de intenções, ás vezes boas, ás vezes más. E é quando a intenção vira ação que as coisas acontecem, as transformações se processam, e o mundo segue seu curso evolutivo, que é resultado da subtração das más intenções. Felizmente, no geral, as boas intenções predominam, mas precisamos observá-las no particular, em sua vida ou na minha. Vidas corriqueiras de pessoas que só querem ser felizes. “Em minha vida”, talvez você diga, “não há más intenções”. É provável que não, mas coloque as coisas numa outra perspectiva: a falta de boas intenções tem o mesmo poder destrutivo que a existência de más intenções.
Uma relação a dois é feita de amor, de intenção e de ação. O amor sozinho é uma bolha de sabão. A intenção sozinha é inócua. A ação sozinha pode ser destrutiva. O encontro dos três é o caldo de cultura do sucesso da relação.
Conheço pessoas que se acomodaram na conquista. “Afinal, estamos juntos porque o amor nos uniu”, diz o incauto, “E ele nos manterá unidos”, completa a imprudente. Não, o amor não sustenta, quem sustenta é a felicidade que vem dele, das ações que ele provoca e das coisas práticas da vida. Lembro que ouvi um típico macho brasileiro afirmar que a “mulher” não se importaria que ele chegasse tarde em casa, pois ela estaria ocupada tomando conta das crianças. Ao lhe perguntar quando ele tinha lhe mandado flores pela última vez, ele me olhou como se eu tivesse feito uma pergunta sobre física quântica. “E o último presente?” Bem, essa foi mais fácil. “No Natal”, disse, rindo.
A rotina que mata o amor é a rotina do que não se faz: da declaração de amor que deixou de ser feita, do elogio economizado, das roupas simples do dia a dia, do sorriso sonegado ao acordar, da palavra de carinho roubada à despedida, da comemoração não feita em qualquer conquista, do boa noite seco, sem um beijo, antes de dormir.
Qual é a intenção dessas pessoas que não colocam seu companheiro como algo importante em suas vidas? Que fruto espera colher, um homem, de uma árvore ressequida pela indiferença? Por que continua, uma mulher, ao lado de um homem a quem não dedica sequer suas melhores palavras?
O amor não se sustenta sem a intenção de amar e sem a ação pequena, mas constante, de alegrar o outro com a sua presença. O amor é uma grandeza que não se sustenta com o tempo. Ou aumenta ou diminui.
Qual é, afinal, a sua intenção?