Num dia chuvoso, enquanto caminhavam pela rua
Ele se deu conta que já não andavam de mãos dadas, assim como era de costume
Dessa vez ela ia à frente, num passo rápido e distraído
Batendo o salto alto na calçada e com a cabeça nas nuvens, ignorava a fala dele
Um elo havia se rompido nesse desatar das mãos
As lágrimas se perderam no rosto em meio às gotas de chuva
O coração secava, encolhia e quase que murchou
Sua garganta doía de tanto engolir as palavras
A cabeça chegava a latejar de tantos pensamentos que ali ecoavam
Ao fim do dia eram dois estranhos deitados sob o mesmo leito
Sem beijo de boa noite ou de bom dia
Nunca mais preparam suas refeições juntos
E nem mesmo se sentaram à mesa para se alimentar
Por acidente ele esbarrou no frasco de perfume na pia do banheiro
O cheiro doce o transportou para uma época feliz
Quis voltar para cama e abraçá-la, mas estava atrasado para uma reunião
E isso era a desculpa que precisava para não assumir o medo da rejeição
Quando terminou o expediente tentou preencher o vazio
Com a bebida de uma garrafa cheia
De madrugada ele se via cheio de si e vazia agora era a garrafa
Percebeu que a aliança apertava seu dedo
Como se fosse um chamado de voltar para casa
Quando chegou se deparou a cama desocupada
O armário foi revirado, sobrando apenas metade das roupas
E antes mesmo que pudesse chorar, ele ouve o choro estridente vindo do outro quarto
Abriu a porta, acendeu a luz e caminhou lentamente
Tomou seu filho nos braços, segurou em sua pequenina mão
E um novo elo se formou, pois a partir de agora eles só tem um ao outro.