01 Set
A Máquina do Tempo
Escrito por Beto Capelupo |
Lido 4648 vezes | Publicado em Matérias
 
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Retomando o eixo da vida, sem carregar o peso do que ficou para trás.

Para começo de conversa, quem nunca experimentou o gosto do fracasso, das duas uma: ou nunca fez nada na vida e, portanto, jamais se submeteu à possibilidade do fracasso, ou é um super-homem infalível. E sinceramente, neste caso, eu acreditaria mais na primeira hipótese.

Ninguém é infalível, portanto todos estamos expostos à possibilidade do insucesso, e ele aparecerá, acredite, porque está escondido em alguma curva do tempo. É só aguardar. Por outro lado, o fracasso eventual é até útil, pois faz parte do processo de crescimento, aprendizado e aprimoramento pessoal. Ouso dizer que até sinto pena de quem nunca fracassou, pois perdeu uma excelente oportunidade de se transformar para melhor.

Fracasso representa um fato e significa o mau êxito do mesmo, mas também é o nome que se dá a um sentimento, aquele peso que se percebe no peito quando algo não vai bem e nos culpamos por isso. São fenômenos correlatos, mas independentes. Você pode ter tido um tremendo insucesso e não se culpar por isso, olhar para frente, utilizar o acontecido como aprendizado e partir para outra. Da mesma forma, você pode ter atingido o objetivo desejado, ser reconhecido por todos, mas conviver com a sensação de que algo está errado. Ou você poderia ter feito ainda melhor, ou o sucesso dependeu menos de você e mais da sorte, ou, ainda, você ganhou a batalha, mas era a batalha errada. O sentimento que deriva dos erros e dos acertos é, portanto, relativo. Repito, com a insistência dos chatos, mas também dos convictos: o que interessa é o que você faz depois. E, para isso, ás vezes é preciso visitar o passado para verificar onde foi que a engrenagem do destino emperrou.

Voltar no tempo é uma fantasia divertida e útil, por estranho que pareça. É útil porque nos obriga a refletir sobre o que gostaríamos de mudar em nossa jornada, portanto, em nós mesmos. A boa noticia é que, nesse sentido, a máquina do tempo já existe, é barata e acessível a todos nós: é a nossa própria consciência. A percepção saudável da realidade permite que façamos uma conexão lúcida entre as experiências presentes e o significado do passado. Parece complexo? Não é tanto assim.

Então, atenção – o passado não deve ser compreendido apenas em seus próprios termos, mas também em termos de percepções do presente. Portanto, alterações na experiência presente modificam o significado do passado. Como assim? Deu “tilt”? Então preste atenção: à medida que amadurece, o ser humano vai transformando a maneira de ver o mundo, pois sua escala de valores sofre modificações naturais. O que parecia ter importância aos 17 anos, aos 32 pode parecer ridículo. E vice-versa.

Obedecendo ao mesmo raciocínio, quando terminamos o colégio, não temos preocupações que passamos a ter quando terminamos a faculdade. Nada mais lógico, pois a idade muda os centros de interesse e, com eles, a importância dos fatos que constroem a realidade que nos cerca. Só que os fatos vividos e não totalmente resolvidos emocionalmente costumam se acumular em nosso inconsciente na forma de recalques, que se manifestam e interferem em nosso comportamento sem que tenhamos consciência disso.

Como falta a noção de tempo, o passado vira presente e nos aprisiona pelos sentimentos que já deveriam ter deixado de existir, uma vez que nossos valores, e os do mundo, mudaram. Costumamos dizer que temos que estar nos atualizando permanentemente, e levamos isso ao pé da letra, mas apenas no mundo profissional, intelectual, tecnológico. Deveríamos também atualizar nossa percepção de nós mesmos, e não apenas do mundo que nos rodeia.

Je ne regrette rien – “Eu não me arrependo de nada”, dizia a pequena grande Edith Piaf. Ela cantou e viveu seus versos mais preciosos: “Minhas mágoas, meus prazeres, não preciso mais deles, varridos meus amores e meus temores, recomeço do zero”. Quanto a mim, é claro que, se pudesse voltar no tempo, procuraria fazer algumas coisas de maneira diferente, assim economizaria algum sofrimento. Como isso não é possível, olho para estes momentos com gratidão, pois sempre – e isso não é força de expressão -, sempre que algo deu errado, um novo caminho se abriu, e este, hoje eu acredito, era melhor.

“Sabe quando você pode se considerar uma pessoa adulta, livre e dona do seu destino? Quando, ao se deparar, frente a frente, com o sucesso e com o fracasso, conseguir tratar da mesma forma estes dois impostores”. Esta frase é uma licença literária do poema “Se”, de Joseph Kipling. Ele chama o sucesso e o fracasso de impostores, pois eles sempre estarão apenas representando. A realidade, a vida como ela é, não tem sucessos, tem momentos de alegria; e não tem fracassos, tem oportunidades de aprendizado.

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