Tinha sido um dia horrível. Tenso, cansativo e frustrante. Para não chegar em casa com a cabeça ainda fervilhando com o “replay” dos problemas do dia, a moça dividiu um táxi com o moço do trabalho, testemunha e companheiro de infortúnios. No caminho, conversariam até gastar toda a vontade de falar.
Disseram o destino ao motorista – ela ficaria na rua Alagoas no bairro de Higienópolis em São Paulo, e ele seguiria mais um pouco, até o Shopping logo adiante. “O trânsito está horroroso”, avisou o taxista. “Então vou fazer um caminho alternativo, tudo bem?”.
Claro que tudo bem. Parados no congestionamento ou costurando por um trajeto mais longo, teriam tempo de sobra para praguejar, protestar, dar vazão a indignação. E assim ficaram tão entretidos que nem prestaram atenção no caminho.
Toca o celular dele. A namorada pergunta onde está. “Na Juscelino, perto do túnel do Ibirapuera”. Ela não entendeu nada. Era como ir de São Paulo a Curitiba via Belo Horizonte. “É um caminho alternativo por causa do trânsito”. Continuava não fazendo sentido. “É um caminho super alternativo!”, ele insistiu, sem pensar muito na estranha escolha do taxista. Não estava a fim de mudar a sintonia da preocupação; importante era concluir a conversa sobre o trabalho. “É, assim que foi feito”, encerrou a ligação, desajeitado.
Retomaram a conversa, mas a amiga não conseguiu ignorar a esquisitice do trajeto. A namorada dele tinha razão. Que diabo de alternativa era aquela? Por pior que estivesse o transito pelo caminho mais curto, aquele era injustificável. Será que eles estavam sendo tapeados? Criou coragem: “Como o senhor vai chegar daqui até o Higienópolis?”.
“Higienópolis?” Coitado do motorista. Em vez de “Alagoas” tinha entendido “Borges Lagoa”, do outro lado da cidade, - e que também fica perto de um Shopping. Ficou mortificado. Pediu tantas desculpas, fulminado de vergonha, que os passageiros nem ficaram aborrecidos. Tentando recuperar o tempo perdido – impossível -, levou-os, enfim, para “Alagoas”, firmemente disposto a não cobrar nada pela corrida. Mas eles fizeram questão de pagar o valor estimado pelo trajeto normal.E se despediram, dando risada.
Podiam ter ficado ainda mais estressados, mas o efeito foi contrário. Afinal, tiveram tempo para fazer uma “descompressão” e chegaram em casa com uma história curiosa para contar. Agora, quando deparam com alguém tentando defender uma solução esdrúxula para um problema, lembram-se da história. Ou quando eles percebem que eles mesmos estão trocando as bolas (ou as “lagoas”). Porque o engano foi do motorista, mas a resposta nonsense foi dele...
Rir dos outros, em vez de se enfurecer com eles, pode ser bom, mas ser capaz de reconhecer, corrigir e rir também das próprias bobagens é ainda melhor.