02 Dez
Minhas Testemunhas
Escrito por Beto Capelupo |
Lido 4996 vezes | Publicado em Matérias
 
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É bom ter alguém para ver o que a gente faz. Mas, a gente tem de se olhar também.

Se uma árvore cai no meio da floresta e não há ninguém para ouvir, a queda faz barulho? Se você não ficou intrigado com a pergunta, pare e pense um pouco. O que é “barulho”? É a impressão resultante da vibração do tímpano transmitida aos terminais nervosos do cérebro – o que, para mim, já é bastante intrigante. Agora, a queda da árvore faz barulho se ninguém puder ouvir?

Quando penso sobre isso, chego a conclusões diferentes a cada instante. “Claro que faz! O barulho está lá. Se houvesse alguém para escutar, escutaria”. “Claro que não. O ar se movimenta, mas não se transforma em barulho”.

Mas não foi por isso que a frase me ocorreu, mas sim porque estive conversando com meu amigo Rodrigo sobre a necessidade que a gente tem de testemunhas – de nosso esforço, sinceridade e sentimentos.

Estar apaixonado, por exemplo, é querer contar pra todo mundo. Contar para a melhor amiga, rabiscar na lousa do colégio, machucar a pobre da árvore com o nome do ser adorado. Compor uma canção, pendurar uma faixa na porta de casa ou avisar mil pessoas pela Internet. É gostoso dar bandeira, deixar que vejam a foto dele ou dela na carteira (“já te mostrei Rubinho?”). Também vale para filho, neto, sobrinho.

Meu momento favorito nas cerimônias de casamento é quando o casal faz declarações de amor e compromisso diante dos amigos e parentes. É gostoso ouvir e falar na frente dos outros. Por que será? Cada um houve o barulho do vento ou as notas de uma música de um jeito. Cada observador guardará uma lembrança diferente. Mesmo sabendo disso, ansiamos por outro (ao menos um!) que confirme e reforce nossas impressões – inclusive a impressão que temos de nós mesmos.

Parece que nada existe se não for percebido por alguém. Precisamos de uma testemunha que confirme: “Sim, ele gosta de você, você também tem um brilho diferente nos olhos”. “É verdade, você se esforçou bastante”. “Você sofreu um bocado, pode chorar”. É bom ser também essa testemunha – do esforço dos filhos, do sentimento dos amigos. Ouvir, reconhecer, confirmar. Sem esquecer que em algum momento estaremos sozinhos. Ou que há lugares, no fundo da nossa mata escura, em que ninguém consegue entrar.

Então é preciso confiar em nosso próprio testemunho, exercitar o olhar atento e honesto para aceitar nosso reconhecimento. Que solidão insuportável quando não nos ouvimos.


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