O que nos impede de nos atirarmos com confiança e alegria para as experiências do mundo? Porque temos tanto medo de nos entregarmos num relacionamento. E, mais que tudo, será que dá pra mudar esse nosso eterno pé atrás com a vida?
Faz de conta que você é um trapezista e está numa plataforma a 20 metros de altura esperando sua vez de se lançar no espaço vazio. Você se preparou, fez vários treinos com e sem rede e sabe que pode contar com seus companheiros que estão ali do outro lado. Naquele centésimo de segundo antes de se jogar, tudo o que você precisa fazer é encher o peito de confiança: em si mesmo e, principalmente, é claro, nos outros. Você inspira fundo, toma impulso e vai como se fosse possível voar sem asas e desafiar a lei da gravidade para sempre naquele curto espaço de tempo. E, quando inexoravelmente começa a cair, alguém pega com vontade nos seus pulsos e o traz de volta para aquela coreografia impossível e bela sob o céu colorido de um picadeiro.
Uma das cenas mais bonitas entre pais e filhos é ver uma criança correr de braços abertos em direção ao seu pai e sua mãe para se jogar neles com a maior felicidade. Ela sabe que vai ser amparada e acolhida com segurança e amor e por isso não tem a menor dúvida. Isto é, ela tem total confiança na vida. E o que faz alguém se lançar no mundo com essa mesma coragem, determinação e alegria? A confiança.
A própria palavra confiança tem em si mesma o segredo de como ela nos dá essa força, que nos permite ultrapassar nossos próprios limites e medos para acreditar na begnidade da existência. Confiar significa “com fé”. Agente pensa que a fé pertence ao universo da religião, que está apartada da vida comum, mas isso não é verdade. É a fé que nos preenche o coração na hora de nos atirarmos num projeto, nos entregarmos em relacionamentos, perseguirmos um objetivo. Não se pode saborear plenamente a vida sem fé. Ela é nosso mais poderoso catalisador de energias.
Vamos voltar para o exemplo da criança que se atira nos braços de seus pais. Logo, logo ela vai perceber que o mundo não é tão generoso e seguro quanto esse braço reconfortante, que, se estiver de peito aberto, pode se ferir. E aqui vamos encontrar o principal motivo da perda de confiança, o medo da dor. De se apaixonar e não ser correspondido, de se entregar e ser traído, de ver um segredo caminhar por ouvidos e bocas de quem não deveria, de imaginar no que os outros vão falar se eu aceitar mudar de emprego, ou se aceitar abandonar a estabilidade que tanto falam que tenho. De arriscar trocar uma relação por outra e depois perceber que o que te completava era exatamente aquilo que você abandonou.
Mas o que dizer se realmente agente foi muito machucado durante a vida? Como voltar novamente a confiar no mundo?
Isabel (nome fictício) sofreu um ataque sexual aos 16 anos, na saída da escola. Foi muito traumático pra ela. A mãe nunca soube de nada (nunca contaram a ela por causa de sua rigidez e intolerância), mas o pai decidiu, de comum acordo com Isabel, que era melhor a jovem viver algum tempo em outra cidade. E assim ela foi para a casa de sua avó Güeli, num pequeno vilarejo no Rio Grande do Sul. O casarão ficava entre parreiras de uvas negras muito doces e pés de pêssegos. Em seu quarto, todos os dias haviam flores frescas no vazinho do criado mudo, deixadas silenciosamente pela velha senhora. E Isabel tinha prazer em ouvir as saborosas histórias da vida da avó Güeli à noite, que a faziam rir, sonhar e ter fé novamente na belevolência da existência. Ficaram amigas, profundamente amigas: duas mulheres, uma velha e outra jovem, que tinham a exata perspectiva do que haviam passado, tanto sofrimentos quanto alegrias. “Um dia minha avó me disse que eu era uma pessoa muito especial, que faria escolhas especiais na vida, e que por isso poderia ajudar muita gente, compartilhando minhas experiências, tantos as tristes quanto as alegres. Com essa frase, ela me deu a permissão de ser novamente eu mesma, do jeito que eu sou”.
As vezes temos a sorte de termos uma avó Güeli para nos curar. Mas, se não tivermos, também podemos fazer isso a partir de nós mesmos: reaprender, aos pouquinhos, a nos presentearmos com pequenos prazeres, apostar de novo em nossos sonhos e ideais, descobrir novos talentos e dar um voto de confiança ao futuro.
Quem confia se sente seguro e tem fé na vida, não importando o que vai acontecer. Prepara-se física e psicologicamente, tem ajuda ou pede por ela, treina muito e, como Zorba, o grego (do clássico do cinema), depois do baque inicial, é até capaz de dançar com um sorriso sobre o próprio fracasso. Sinceramente, talvez você e eu ainda não tenhamos chegado a esse ponto verdadeiramente invejável. Mas tenho certeza de que, com um pouco de prática, entrega e abertura, ainda chegará o dia em que finalmente teremos coragem de chegar na pontinha da plataforma do trapézio, contemplar o ambiente e nos atirarmos. Com muito mais confiança.