Muitas vezes tentamos nos encaixar a força em situações aparentemente perfeitas. No fim das contas, a idealização funciona como estes displays de parques de diversão em que é possível ser fotografado (após encaixar a cabeça) em cenas irreais e irretocáveis – além de falsas, claro. Por que desejamos (e raramente conseguimos) ter um corpo irretocável, um casamento de novela, ou um emprego dos sonhos?
Enquanto lia estas poucas linhas, talvez inconscientemente você tenha listado seus defeitos. Os centímetros a menos, a barriga que insiste em saltar da calça, a preguiça que impede aquelas aulas de francês à noite, sua desorganização atávica. Parabéns! Você lembrou que é humano... e isso já é um bom começo.
Porque não é fácil sobreviver à avalanche de histórias de transformação pessoal e receitas de superação que desabam todos os dias sobre nós. Tem sempre alguém, do alto do próprio sucesso, dizendo que “querer é poder”.
Não há como escapar da comparação. Só conseguimos avaliar o que temos e o que somos comparando nossa situação com a de um grupo de referencia. Então o que fazer com esse sentimento? A primeira coisa é cuidar para que a competição não tome conta das relações, sejam elas afetivas, familiares ou profissionais. Se isso acontecer – e normalmente acontece – que tal transformar a competição em cooperação? Percebendo que não estamos nas relações apenas para dar e receber, mas também para cooperar, construir um bem comum. E depois tentar ver a vida dos outros como ela é, e não como parece ser. Já está mais que na hora de deixar de acreditar que existe um mundo cor-de-rosa. Não existe! Nem pra você, nem para a garota sorridente da capa de revista. Os conflitos, as idas e vindas, os erros e todas as outras mancadas do caminho fazem parte do processo de vida.
“Todos os dias, quando não aceito minhas falhas, corro o risco de deixar aquilo que sou para me transformar num corpo sem marcas, sem histórias, sem humores. Em mera imagem”. Se esta também não é sua intenção, então está na hora de passar a olhar o mundo através de lentes não viciadas em cânones ou padrões. Lentes que permitam enxergar tudo de forma clara, onde não existe certo e errado, nem perfeito e imperfeito. Se tudo depende do contexto e do observador, pare e olhe para você. Mas olhe profundamente.
Lembro de uma famosa frase: “Quem olha para fora sonha, quem olha para dentro desperta”.
Sonhar agente já sonha, e faz muito bem. Mas devemos despertar para um novo jeito de ver e estar no mundo, um jeito intrinsecamente ligado a nós. Para isso é preciso deslocar o foco da aparência para a essência. Ao procurar meus traços fundamentais, a soma de características que me faz ser o que sou, encontrei muitas coisas de que gosto e tantas outras de que não gosto. Mas é bom aceitar suas falhas com a mesma graça e humildade com que você aceita suas melhores qualidades. Porque pode ser nos defeitos que insistimos em esconder que se expresse nossa personalidade. A imperfeição rejeitada pode ser sua marca registrada, aquela que faz com que você seja reconhecido e lembrado. Anular as imperfeições é como matar as diferenças. É como subscrever um abaixo assinado contra o estilo, a atitude, a essência. Contra toda e qualquer idéia independente sobre beleza.
Lembre-se de que a essência só se fará presente quando encontrar a espontaneidade de um corpo livre de travas e amarras. De que adiantam dentes superficialmente brancos numa boca que não sorri? Ponha uma flor nos seus cabelos crespos, enfeite sua miopia com óculos coloridos. Use sua preguiça como um antídoto contra o estresse que paira no escritório, sua rigidez para superar um momento difícil, e sua gargalhada estridente para quebrar o gelo. Enxergue que mesmo aquele que consideramos nossos piores defeitos, em muitos momentos, pode ser funcional.
E pense que talvez as pessoas mais fascinantes sejam aquelas capazes de serem e permanecerem naturais.