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21 Dec

Desesperar Jamais!!!

Publicado em Matérias

Pode parecer inevitável, mas existe sempre a opção “não desesperar”. Aperte o botão.

Já se passaram duas semanas da data de entrega do texto. São 11h da noite, e o que eu mais queria era dormir, mas não vai dar. Também preciso escrever alguma coisa no blog, que há muito tempo não vê um texto novo. E ler aquele e-mail urgente que chegou a semana passada. Não posso deixar de imprimir aquele artigo sobre comunicação de marketing antes da aula de amanhã.

Ainda não marquei o almoço que eu prometi para o João Rafael. Tomara que ele ainda se lembre das coisas que queria me contar. O cartão com o telefone estava em cima da mesa. Quando é que vou terminar de arrumar as gavetas do escritório? Ah, e não posso deixar de escrever um recado pedindo para a Dona Sonia não mexer nas pilhas de papéis no chão, por misericórdia.

Fiquei devendo para o vizinho aquela pesquisa sobre a coleta seletiva aqui no bairro. Se eu não preparar hoje o seminário de quarta feira, não preparo mais – amanhã ou depois não vai sobrar um mísero espaço de tempo. Tenho que marcar logo o dentista antes que o dente quebrado não tenha mais conserto. Será que eu mandei todas as roupas que eu precisava para a lavanderia?

Nossa, essa parede está horrível. Não sei o que faço primeiro: pintar, comprar um adesivo, uma prateleira nova para acomodar a coleção de filmes. Será que eu mando fazer uma cortina ou instalar uma persiana? É ridículo ter tudo isso de relógio se eu não uso nem metade. No próximo bazar da empresa já tenho o que doar.

Anotações mentais: ligar para a Heloísa (sobre empréstimo), passar as fotos da câmera para o computador, colocar a mensalidade do curso de pós-graduação em débito automático. Pedir roupas usadas para as meninas do projeto de Belo Horizonte customizarem.

Dúvidas: tomei ou não tomei o remédio de homeopatia? A que horas mesmo começo a reunião amanhã? (onde será que eu anotei o endereço?).

Já passa das 11h40 e perdi o sono. Eu disse para o pessoal do Mundo Diversidade que ia fazer um texto sobre sexo seguro, mas vou deixar para o mês que vem. Prefiro escrever sobre minha maior necessidade no momento: não desesperar. As gavetas, os papéis, as contas, os e-mails, as paredes, as janelas, os amigos, o namorado, a grana, o trabalho... Embora pareçam se encontrar todos em uma festa ruidosa dentro da minha cabeça, cada um tem sua hora e lugar. Calma.

O coração fica apertado de aflição, o peito parece estreito como uma porta entreaberta, mas cada problema tem sua hora e sua vez. Agora só preciso ter uma preocupação: escrever. Depois, dormir. Depois, resolver uma coisa de cada vez.

Por mais complicada e difícil que seja a vida, a opção “não desesperar” está sempre presente no menu. Vou apertar esse botão e fazer o que for possível. Daqui a um, dois, dez ou 90 dias, estarei deitado numa rede lendo um livro e todos os motivos para o desespero serão fantasmas distantes. Porque me deixar assombrar por eles agora?

Não desesperar. A vida não fica mais simples, mas fica menos difícil.

15 Dec

De Braços Abertos

Publicado em Matérias

O que nos impede de nos atirarmos com confiança e alegria para as experiências do mundo? Porque temos tanto medo de nos entregarmos num relacionamento. E, mais que tudo, será que dá pra mudar esse nosso eterno pé atrás com a vida?

Faz de conta que você é um trapezista e está numa plataforma a 20 metros de altura esperando sua vez de se lançar no espaço vazio. Você se preparou, fez vários treinos com e sem rede e sabe que pode contar com seus companheiros que estão ali do outro lado. Naquele centésimo de segundo antes de se jogar, tudo o que você precisa fazer é encher o peito de confiança: em si mesmo e, principalmente, é claro, nos outros. Você inspira fundo, toma impulso e vai como se fosse possível voar sem asas e desafiar a lei da gravidade para sempre naquele curto espaço de tempo. E, quando inexoravelmente começa a cair, alguém pega com vontade nos seus pulsos e o traz de volta para aquela coreografia impossível e bela sob o céu colorido de um picadeiro.

Uma das cenas mais bonitas entre pais e filhos é ver uma criança correr de braços abertos em direção ao seu pai e sua mãe para se jogar neles com a maior felicidade. Ela sabe que vai ser amparada e acolhida com segurança e amor e por isso não tem a menor dúvida. Isto é, ela tem total confiança na vida. E o que faz alguém se lançar no mundo com essa mesma coragem, determinação e alegria? A confiança.

A própria palavra confiança tem em si mesma o segredo de como ela nos dá essa força, que nos permite ultrapassar nossos próprios limites e medos para acreditar na begnidade da existência. Confiar significa “com fé”. Agente pensa que a fé pertence ao universo da religião, que está apartada da vida comum, mas isso não é verdade. É a fé que nos preenche o coração na hora de nos atirarmos num projeto, nos entregarmos em relacionamentos, perseguirmos um objetivo. Não se pode saborear plenamente a vida sem fé. Ela é nosso mais poderoso catalisador de energias.

Vamos voltar para o exemplo da criança que se atira nos braços de seus pais. Logo, logo ela vai perceber que o mundo não é tão generoso e seguro quanto esse braço reconfortante, que, se estiver de peito aberto, pode se ferir. E aqui vamos encontrar o principal motivo da perda de confiança, o medo da dor. De se apaixonar e não ser correspondido, de se entregar e ser traído, de ver um segredo caminhar por ouvidos e bocas de quem não deveria, de imaginar no que os outros vão falar se eu aceitar mudar de emprego, ou se aceitar abandonar a estabilidade que tanto falam que tenho. De arriscar trocar uma relação por outra e depois perceber que o que te completava era exatamente aquilo que você abandonou.

Mas o que dizer se realmente agente foi muito machucado durante a vida? Como voltar novamente a confiar no mundo?

Isabel (nome fictício) sofreu um ataque sexual aos 16 anos, na saída da escola. Foi muito traumático pra ela. A mãe nunca soube de nada (nunca contaram a ela por causa de sua rigidez e intolerância), mas o pai decidiu, de comum acordo com Isabel, que era melhor a jovem viver algum tempo em outra cidade. E assim ela foi para a casa de sua avó Güeli, num pequeno vilarejo no Rio Grande do Sul. O casarão ficava entre parreiras de uvas negras muito doces e pés de pêssegos. Em seu quarto, todos os dias haviam flores frescas no vazinho do criado mudo, deixadas silenciosamente pela velha senhora. E Isabel tinha prazer em ouvir as saborosas histórias da vida da avó Güeli à noite, que a faziam rir, sonhar e ter fé novamente na belevolência da existência. Ficaram amigas, profundamente amigas: duas mulheres, uma velha e outra jovem, que tinham a exata perspectiva do que haviam passado, tanto sofrimentos quanto alegrias. “Um dia minha avó me disse que eu era uma pessoa muito especial, que faria escolhas especiais na vida, e que por isso poderia ajudar muita gente, compartilhando minhas experiências, tantos as tristes quanto as alegres. Com essa frase, ela me deu a permissão de ser novamente eu mesma, do jeito que eu sou”.

As vezes temos a sorte de termos uma avó Güeli para nos curar. Mas, se não tivermos, também podemos fazer isso a partir de nós mesmos: reaprender, aos pouquinhos, a nos presentearmos com pequenos prazeres, apostar de novo em nossos sonhos e ideais, descobrir novos talentos e dar um voto de confiança ao futuro.

Quem confia se sente seguro e tem fé na vida, não importando o que vai acontecer. Prepara-se física e psicologicamente, tem ajuda ou pede por ela, treina muito e, como Zorba, o grego (do clássico do cinema), depois do baque inicial, é até capaz de dançar com um sorriso sobre o próprio fracasso. Sinceramente, talvez você e eu ainda não tenhamos chegado a esse ponto verdadeiramente invejável. Mas tenho certeza de que, com um pouco de prática, entrega e abertura, ainda chegará o dia em que finalmente teremos coragem de chegar na pontinha da plataforma do trapézio, contemplar o ambiente e nos atirarmos. Com muito mais confiança.

01 Jun

Se Mate

Publicado em Matérias

Saiu do carro tão rápido que quase atravessou a porta, desejou voar só pra não ter que esperar o elevador, a alteração é visivelmente notada, sua respiração ofegante denunciava que não dominava mais sua consciência. Deslizava nos corredores, aos trancos pulava de dois em dois os degraus, entrou em casa esbaforido e ligou o computador. Seu amigo estava online, sem nem mesmo dizer “Oi” começou a vomitar palavra no seu teclado:

- Tá decido, de hoje não passa...

- O que?

- Está me incomodando de mais, eu já agüento mais, fica martelando na minha cabeça o dia inteiro, me botando pra baixo como seu eu não fosse nada...

O amigo do outro lado lotou a tela de interrogações e tentou continuar, como não sabia o que escrever, teceu uma filosofia de folhetim, das mais baratas.

Antes mesmo de ler se dirigiu até o banheiro e se encarou no espelho por alguns segundos, mas não se via. Foi á sala, deitou no sofá deixando a TV falar sozinha, percebeu que em cada cômodo que entrava a culpa lhe perseguia. Se sentia incoerente, não podia acreditar que chegara ao auge da unificação entre amor e ódio. Na pia da cozinha lavou o rosto e quando viu seu reflexo distorcido no azulejo, tomou a decisão.

Voltou ao computador e digitou freneticamente:

- É agora!

- Do que você está falando? Não estou entendendo nada...

- Vou me matar! Não suporto mais essa dor e nem o que me tornei. Cansei de estar condenado a ser possibilidades não realizadas .

- Hey para de dizer bobeira!

- Não acredito mais no sentido que dei à minha vida, ou do sentido que me foge, preciso adquirir um modo de viver, mais apropriado, mais autêntico e justo comigo.

Nessa visão, confronto o absurdo e estabeleço o desejo de viver só quando puder ver um sentido maior no sofrimento. Decidi, vou aniquilar de vez essa minha forma de viver, serei diferente a partir de agora, chega de me lamentar para o travesseiro, basta de engolir as palavras e não mostrar para as pessoas o que sinto.

Existem pessoas que tem em mim uma influencia definitiva, muita coisa de minha vida foi construída em cima daquilo que me deram pra viver e por motivos diversos mau vejo essas pessoas, quando estou diante delas não sei nem o que dizer. Verdadeiramente existem pessoas que surgem para mostrar o que é ideal, de comportamento, de ser humano e me influenciam pelo exemplo, não pelo quão imperativo poderiam ser.

Hoje em dia as coisas andam tão esquisitas que tenho receio de dizer para as pessoas o quanto gosto delas, aí invento milhões de desculpas... Que não sei mais dizer, que não encontro maneira de dizer, que tenho vergonha, que estou muito ocupado e um dia, quem sabe, vou arrumar tempo pra fazer algo junto. De repente me dou conta que há mais o que fazer, não da mais tempo, é tarde e deixo as pessoas partirem.

Desse momento em diante aquele que começou a conversa não existe mais, quero aproveitar cada comento, chega de fazer das minhas redes sociais uma prateleira de amigos, chega de dizer que estou cansado, que não tenho tempo, vou gozar da minha companhia e da de quem mais quiser me acompanhar, vou me namorar, descobrir o que é meu nessa vivencia como outro, vou sair, dançar, rir e chorar. Viver tudo e não deixar que ninguém mais me anule ou me ofusque, principalmente eu mesmo!

Que esse suicídio, do que fui até então, não seja uma forma de morrer e sim tentativa desesperada de buscar vida, brincar com minha habilidade de quase ir e vir, fazer com que me sinta digno de estar vivo, descobrir dentro de mim um deus e assim despertar pra um novo caminho a ser trilhado, porque estou aqui de passagem, para melhorar e acrescentar algo de bom pra mim e para as pessoas que cruzam meu caminho.

Será que de tudo há concordância ou não na a minha maneira de encarar as coisas?

- Talvez, mas ao menos você já sabe o que não quer ser e isso sim pode mudar o sentido de sofrer.

- Sei que ao dormir vou morrer novamente e que amanhã ao despertar vou continuar procurar um novo eu, pois minha necessidade de viver é que me mata.

25 May

Ninguém é perfeito

Publicado em Matérias

Muitas vezes tentamos nos encaixar a força em situações aparentemente perfeitas. No fim das contas, a idealização funciona como estes displays de parques de diversão em que é possível ser fotografado (após encaixar a cabeça) em cenas irreais e irretocáveis – além de falsas, claro. Por que desejamos (e raramente conseguimos) ter um corpo irretocável, um casamento de novela, ou um emprego dos sonhos?

Enquanto lia estas poucas linhas, talvez inconscientemente você tenha listado seus defeitos. Os centímetros a menos, a barriga que insiste em saltar da calça, a preguiça que impede aquelas aulas de francês à noite, sua desorganização atávica. Parabéns! Você lembrou que é humano... e isso já é um bom começo.

Porque não é fácil sobreviver à avalanche de histórias de transformação pessoal e receitas de superação que desabam todos os dias sobre nós. Tem sempre alguém, do alto do próprio sucesso, dizendo que “querer é poder”.

Não há como escapar da comparação. Só conseguimos avaliar o que temos e o que somos comparando nossa situação com a de um grupo de referencia. Então o que fazer com esse sentimento? A primeira coisa é cuidar para que a competição não tome conta das relações, sejam elas afetivas, familiares ou profissionais. Se isso acontecer – e normalmente acontece – que tal transformar a competição em cooperação? Percebendo que não estamos nas relações apenas para dar e receber, mas também para cooperar, construir um bem comum. E depois tentar ver a vida dos outros como ela é, e não como parece ser. Já está mais que na hora de deixar de acreditar que existe um mundo cor-de-rosa. Não existe! Nem pra você, nem para a garota sorridente da capa de revista. Os conflitos, as idas e vindas, os erros e todas as outras mancadas do caminho fazem parte do processo de vida.

“Todos os dias, quando não aceito minhas falhas, corro o risco de deixar aquilo que sou para me transformar num corpo sem marcas, sem histórias, sem humores. Em mera imagem”. Se esta também não é sua intenção, então está na hora de passar a olhar o mundo através de lentes não viciadas em cânones ou padrões. Lentes que permitam enxergar tudo de forma clara, onde não existe certo e errado, nem perfeito e imperfeito. Se tudo depende do contexto e do observador, pare e olhe para você. Mas olhe profundamente.

Lembro de uma famosa frase: “Quem olha para fora sonha, quem olha para dentro desperta”.

Sonhar agente já sonha, e faz muito bem. Mas devemos despertar para um novo jeito de ver e estar no mundo, um jeito intrinsecamente ligado a nós. Para isso é preciso deslocar o foco da aparência para a essência. Ao procurar meus traços fundamentais, a soma de características que me faz ser o que sou, encontrei muitas coisas de que gosto e tantas outras de que não gosto. Mas é bom aceitar suas falhas com a mesma graça e humildade com que você aceita suas melhores qualidades. Porque pode ser nos defeitos que insistimos em esconder que se expresse nossa personalidade. A imperfeição rejeitada pode ser sua marca registrada, aquela que faz com que você seja reconhecido e lembrado. Anular as imperfeições é como matar as diferenças. É como subscrever um abaixo assinado contra o estilo, a atitude, a essência. Contra toda e qualquer idéia independente sobre beleza.

Lembre-se de que a essência só se fará presente quando encontrar a espontaneidade de um corpo livre de travas e amarras. De que adiantam dentes superficialmente brancos numa boca que não sorri? Ponha uma flor nos seus cabelos crespos, enfeite sua miopia com óculos coloridos. Use sua preguiça como um antídoto contra o estresse que paira no escritório, sua rigidez para superar um momento difícil, e sua gargalhada estridente para quebrar o gelo. Enxergue que mesmo aquele que consideramos nossos piores defeitos, em muitos momentos, pode ser funcional.

E pense que talvez as pessoas mais fascinantes sejam aquelas capazes de serem e permanecerem naturais.