Fabrício Rocha

Fabrício Rocha

11 Aug

Elo

Publicado em Matérias

Num dia chuvoso, enquanto caminhavam pela rua
Ele se deu conta que já não andavam de mãos dadas, assim como era de costume
Dessa vez ela ia à frente, num passo rápido e distraído
Batendo o salto alto na calçada e com a cabeça nas nuvens, ignorava a fala dele
Um elo havia se rompido nesse desatar das mãos

As lágrimas se perderam no rosto em meio às gotas de chuva
O coração secava, encolhia e quase que murchou
Sua garganta doía de tanto engolir as palavras
A cabeça chegava a latejar de tantos pensamentos que ali ecoavam

Ao fim do dia eram dois estranhos deitados sob o mesmo leito
Sem beijo de boa noite ou de bom dia
Nunca mais preparam suas refeições juntos
E nem mesmo se sentaram à mesa para se alimentar

Por acidente ele esbarrou no frasco de perfume na pia do banheiro
O cheiro doce o transportou para uma época feliz
Quis voltar para cama e abraçá-la, mas estava atrasado para uma reunião
E isso era a desculpa que precisava para não assumir o medo da rejeição

Quando terminou o expediente tentou preencher o vazio
Com a bebida de uma garrafa cheia
De madrugada ele se via cheio de si e vazia agora era a garrafa
Percebeu que a aliança apertava seu dedo
Como se fosse um chamado de voltar para casa

Quando chegou se deparou a cama desocupada
O armário foi revirado, sobrando apenas metade das roupas
E antes mesmo que pudesse chorar, ele ouve o choro estridente vindo do outro quarto
Abriu a porta, acendeu a luz e caminhou lentamente
Tomou seu filho nos braços, segurou em sua pequenina mão
E um novo elo se formou, pois a partir de agora eles só tem um ao outro.

21 Jul

Semente

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Às vezes é difícil acreditar que crescemos, bate uma saudade daquele tempo em que a maior preocupação era ir para escola e tirar boas notas.

Acordava tarde, assistia os melhores desenhos animados, almoçava comida caseira com gosto de coisa feita com carinho de mãe e depois me preparava para ir para aula encontrar os amigos.

Ficávamos em linha, de cabelo lambido e com uniformes iguaizinhos, sorrindo cantávamos o Hino Nacional, depois íamos para sala de aula com a mão no ombro do colega mais baixo à frete e em fila indiana. Com apenas uma professora (que todos chamavam de tia) aprendia meia dúzia coisas, que pouco me serviram na vida adulta, brincava de assistir aula com cantigas e nas atividades mais gostosas de se fazer, nem via o tempo passar até ir pro recreio, corria, pulava, gritava, cantava, inventava um mundo inteiro em 30 minutos.

Nem sonhava quão podre é nossa política, pois a história do Brasil era linda, com reis, cavalos, bandeirantes, políticos honestos e revolucionários, nada tinha falha. Eu não tinha dívidas e nem contas pra pagar, matemática naquela época era decorar a tabuada (difícil era agüentar a mãe fazendo chamada oral). Nem pensar em e-mail para o chefe, português era fazer redação falando das férias. Terremoto e tsunami, que nada, geografia era copiar o mapa do Brasil com papel de seda e escola Pública era tão boa quanto a Particular.

Adorava chegar em casa e dar aquele abraço nos pais como se não os visse há uns 10 anos, jantávamos todos juntos e riamos da televisão com a família toda sentada lado a lado.

Durante a semana eu podia brincar fora de casa até umas 20h e nas Sextas-feiras, além de jantar lanche, eu podia voltar às 21:30. Com os amigos brincava de tudo, esconde-esconde, pega-pega, mãe da rua, gato mia, policia e ladrão, barra manteiga, passa anel e tantos outros jogos, dos mais saudáveis e que faziam a imaginação ir longe.

Acreditava em tudo que me falavam na igreja, tudo era pecado ou um mistério, eu gostava mais da missa das crianças, era a mais animada, cantávamos alto as músicas que aprendíamos na escola dominical.

Eu namorava as meninas mais lindas, mais populares, de todas as idades, às vezes até artistas de televisão, mesmo que nenhuma delas soubesse disso. Amor era quando se gostava de alguém, em segredo, de uma forma tão platônica em que pegar na mão ou ganhar um beijo no rosto significava que a coisa já tinha ficado séria, quase fadada ao casamento. Mas o que eu gostava mesmo era quando as amigas do meu irmão mais velho me paparicavam, me enchiam de beijos, abraços e cafunés, aí eu contava todo orgulhoso para todos os meninos da minha idade que elas eram minhas namoradas.

Meus pais eram o casal mais lindo do mundo. O pai um herói mais forte do mundo e minha mãe uma rainha. Primos desde sempre representavam os irmãos de fora de casa, tios uns queridos que faziam de tudo pra me ver gargalhar. Natal era a maior das festividades, todos se encontravam, cantavam música ao som do violão, riam e choravam juntos, uma fartura de felicidade, bagunça, presentes e gente espalhada nos colchões pela casa da minha Vó.

Muitos olhariam para esse cenário e desejariam ser como o Peter Pan, sem vontade de crescer e enfrentar a vida adulta. Eu não! Sou grato pelas pessoas que me marcaram de uma forma muito especial, mesmo que com a idade eu tenha me chocado algumas vezes ao descobrir o erro e a imperfeição delas.

Vivi intensamente cada momento da minha infância, agradeço por me terem mostrado o que é certo e o que é errado e por não terem me protegido das conseqüências de meus erros. Obrigado a todos que souberam me mostrar que aprender também às vezes é caminho áspero. Dou graças por vocês que sempre me lembraram que eu tenho o meu próprio modo de ser, não importando quão malucas são minhas idéias e que meus medos não eram bobos, vocês sempre ajudaram a compreendê-los e vencê-los.

Afinal, tudo isso fez da minha vida única, cheia de momentos inesquecíveis de pura felicidade e diversão. Por isso não lamento ter crescido, não sofro por hoje ter responsabilidades, tristezas, lutas e amarguras, eu tenho gratidão por ter, desde criança, situações que me ajudaram a construir uma personalidade singular, alguém que amadureceu diante de pessoas que nunca tiveram vergonha de ser o que são, que nunca negaram afeto, mesmo quanto eram duros. Vocês sempre estiveram aqui, até no meu erro e assim me deram o alicerce baseado no carinho e amor para eu poder transmitir isso de volta onde quer que esteja.

E não importa todo saudosismo que sinto hoje, às vezes é preciso olhar pra traz e lembrar quem sou, onde iniciou essa busca pelo reflexo dos que sempre insistiram através do exemplo, daqueles que acreditaram no futuro que vivo agora, e dos muitos em minha história que permitiram que eu seja o fruto daquilo que plantaram.

06 Jul

Olho no Olho

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Ao abrir a porta
Olha nos olhos dele
E percebe que ela já não sentia mais amor

Jantaram juntos
A comida parecia ter perdido o sabor
Aflita, olhava para o relógio
Quase que contava os segundos
Sentiu-se sufocada
Diante dela, ele ficou invisível

Pegou seu carro
Sem nem notar o trajeto
Chegou em casa
Da chave da porta voou para seu baú de lembranças
Reviu fotos de ex-namorados
As imagens que outrora eram de felicidade
Derreteram em suas mãos
Se converteram em material para anos de terapia

Quis entender onde errou
Onde erram
Forçou a memória e caiu no sono
Cercada por cartas, imagens, cartões e nostalgia

Acordou dormindo
Engoliu o café amargo e com sabor de solidão
Seus olhos marejaram ao perceber
Que todas suas amigas estava casadas
Ou ao menos já eram mães

Abriu bruscamente seu notebook
Num clic viu seus ex-namorados
Postando fotos de mulheres
Que sabem amá-los hoje
De uma maneira que ela não soube ontem

Quis ficar invisível
Mas em qualquer lugar que se escondesse
Seus pensamentos seguravam forte em sua mão
Sentiu que o peso da idade
Havia lhe deixado mais exigente e mais crítica
A obsessão pela perfeição lhe roubou o sorriso
A felicidade e espontaneidade da juventude
Envelheceu

Quando percebeu que tomada pelo medo
Ela sabotara seus relacionamentos sem notar
Entendeu o mecanismo de seus términos
Compreendeu que do sofrimento
Surgia outro alguém que lhe dava todo cuidado
E proteção que precisava

Antes mesmo de sentir culpa
A campainha toca
Ao abrir a porta
Olha nos olhos dele
E percebe que ele ainda sente mais amor

Você encontrou o seu par perfeito, estavam se sentindo como a Kate e o Willam de tão perfeitos. Passa o tempo e na convivência percebem que já não se entendem tão bem assim. A famosa crise do relacionamento chegou...PÂNICO.

Chamo de crise aquilo que sai do padrão positivo ou de uma rotina boa, quando você já não se sente pronto para lidar com mudanças, até mesmo com as positivas. Basicamente todas as pessoas mudam diariamente, ninguém nunca é a mesma pessoa do dia anterior e as alterações nem sempre são fáceis de lidar para ambas as partes, começam então as divergências.

Estou falando de relacionamentos, não interessa se é namoro, "ficantes", noivado, "peguete", casamento ou uma relação entre amantes. Todos estão sujeitos a passar por isso nos mais diferente momentos da relação e a raiz da questão, pode estar no campo afetivo, no sexual, no financeiro, no familiar, porém o que é importante se perguntar é:

Como faço para lidar com as mudanças de dinâmicas e conduzir as divergências sem danificar ou descarregar baldes de mágoas antigas diante das expectativas frustradas?

Ouço sempre as pessoas falar: "Falta romance na relação" e ficam à espera de algo mágico que trará todo encanto, romantismo e sedução de volta para o casal.

O ritmo diminui sexualmente ou se tornam acomodados, fica-se na expectativa que o parceiro de alguma maneira seja cuidador, sem deixar de ser sexy e sem ser controlador de mais. Às vezes isso se mistura com desejo de proteção, outras vezes com frustração.

O complicado dos relacionamento são as expectativas, normalmente são guardadas e na maioria das vezes, a crise se inicia por falta de uma comunicação clara, afetiva e verdadeira.

Existe algo que chamo de Síndrome do Príncipe (Princesa) Encantado(a), aquela fase do comecinho do namoro em que se usa como mecanismo de sedução a postura de ser mais agradável, mais charmoso, mais educado, mais tudo do que se é normalmente. As pessoas tendem a falar aquilo que agrada ou seduz o outro; dificilmente se fala o que se gosta, o que se espera, o que se deseja e o que não se quer viver. Parece que por medo o outro não goste do que está verdadeiramente em si e por receio de que isso distancie.Homens e mulheres se calam e passam a esperar que o outro adivinhe ou perceba e faça coisas que agrade.

Desde o começo da relação ninguém era Mãe ou Pai Diná, nunca houve bola de cristal para adivinhação em relacionamentos, o que existe é a possibilidade de falar, colocar ao outro o que se deseja, dizer que algumas coisas têm valor especial e ouvir do outro o que é bom ou importante. Parece simples eu sei... mas nem sempre acontece.

Com o tempo o que o outro diz parece irritar ou então, aquilo que você tanto admirava virou um tormento no seu dia-a-dia. Começa então uma recusa (um tanto inconsciente) de uma verdadeira experiência amorosa, ou então se escolhe erroneamente por temer a mesma. O medo, ciúmes ou competição na relação pode surgir da soma de excitação e competição. Reflexo da disputa de quem iria deter o poder sobre a afetividade.

Quando se busca um parceiro afetivo ou sexual, a primeira pergunta a se fazer é: Que tipo de vivências se quer ter com ele? Sexo, prazer, sofrimento, angústia e inquietação entre outras.

Ter claro para si o que se busca num relacionamento, pois muitas vezes se confunde os elementos que se colocam a nossa frente. Desejamos amizade, companheirismo, atração sexual por parte do outro e fidelidade. Obviamente seria absurda a reunião de tais qualidades em uma só pessoa, embora todos gostem de delirar sobre a pessoa que escolhem.

Poucos percebem, conscientemente, o que estão atraindo em seus relacionamentos. Então quando não tem seus desejos ocultos atendidos, se vê diante da contrariedade, transformando carência em vingança pessoal (mal humor, discussões sem motivo, palavras duras e etc.).

Crescemos em uma cultura cristã que nos levou a negar que possuímos ódio ou desejo de se vingar. A hipocrisia e dissimulação são os alicerces mais profundos da insatisfação generalizada, que dramatizamos no cotidiano do relacionamento, quando o outro nos aponta que se esta agindo dessa maneira a reação é ainda pior e alguns, nesse momento, chegam até a romper o relacionamento.

Não é na base do grito ou na imposição da autoridade que se faz alguém nos ouvir ou ser convencido daquilo que argumentamos. Muitas brigas e debates tem seu desfecho drástico quando um dos lados é irredutível ou sedenta de vencer uma discussão a qualquer custo. Mesmo que para isso seja necessário interromper o discurso da outra pessoa com frases do tipo: "Você sempre diz a mesma coisa!"; "É assim que eu quero que seja!" ou "Você nunca fez isso ou aquilo"… Massacrando, dessa forma, o direito da fala do outro e sem chegar a uma solução da crise.

Como é possível duas pessoas que se conhecem há tempos desenvolveram o medo de expor a realidade? Medo de magoar o outro?

Acredito um dos piores dos sentimentos é a pena, ela despotencializa por completo o outro e leva faltamente a um complexo de inferioridade. Talvez não exista desafio maior para qualquer ser humano do que lidar com suas experiências e seus anseios.

O primeiro ponto para a refletir é: Gostaria de esquecer ou reviver as antigas experiências?

Deve-se encontrar quais mecanismos conscientes ou inconscientes se utiliza para reviver determinadas etapas inacabadas.

A crise permite uma nova construção, um novo projeto de vida conjunta. É uma possibilidade dos parceiros se casarem novamente e desta vez ser algo que sirva para ambos e sobre o qual os dois tenham poder de "dirigir".

Na maioria das vezes as crises, inclusive sexuais, começam com uma falha de expressão que pode levar a um enfrentamento ou discussões. Existem muitas formas de se falar do que se gosta ou espera ou daquilo que não se acha bom de viver.

Penso que a melhor maneira de lidar com as fases ruins de uma relação é aprender a administrar as emoções e lidar com elas (o famoso contar até 10). Começar a olhar o que precisa ser mudado e o que pode ser aproveitado em um momento de crise.

Sem dúvida o diálogo é a chave para acabar com qualquer crise. Deve-se falar o que sente e o que pensa, tanto para criticar como para elogiar. Nunca acumular um monte de coisas (engolir sapo) e depois vomitar tudo de negativo de uma vez durante uma briga ou na crise em si.

Só consegue mudar quando se esta preparado para ouvir, isso é muito importante. Muitas pessoas gostam de falar e não gostam de ouvir, se não houver respeito, confiança, companheirismo, verdade e sentimento, não existe mais relação. O entendimento diante dos impasses acontece quando há uma troca de idéias e o monólogo cede lugar ao diálogo.

Estar aberto para perguntar e escutar sobre satisfações, alegrias, também sobre inibições e frustrações. Aí está o segredo, é esse o espaço onde ocorrerão as soluções e também os atos chamados eróticos. Algumas coisas inibem o erotismo como o cansaço, o mal-estar, a monotonia, assim inibe-se as carícias e existe pouca receptividade ao convite ao prazer amoroso.

Crises ou conflitos podem existir independente do tempo que se está junto. O importante é aprender a ler o que essa crise esta querendo mostrar, onde estão as falhas de comunicação, onde se perdeu o relacionamento ou o estimulo para investir, conquistar e reciclar a relação.

Além de uma boa conversa, ter muita confiança em si e não se desvalorizar. Aceitar as diferenças de personalidade, evitando a arrogância.

É preciso ter consciência de que as crises não serão evitadas e por isso, as mudanças devem ser vistas como um novo ânimo para o casal.

Todos, nos tempos atuais, deveriam ter em mente que o amor, romance, namoro ou qualquer nome que batizarmos para um relacionamento, não pode ser encarado como uma recreação ou passatempo dos finais de semana, sendo uma espécie de continuação de nossas atividades profissionais. A questão amorosa deveria ser a prioridade absoluta, caso contrário, o conflito têm a tendência de inundar a vida pessoal, gerando constante insatisfação e infelicidade.

Aprender a falar e a ouvir sem ter que se sentir atacado é um grande exercício de crescimento para casais, tanto no aspecto afetivo como no sexual.

Vale a pena tentar…

09 Jun

Homem Bonzinho

Publicado em Matérias

Ouço diariamente as pessoas dizerem “Quero um alguém carinhoso, atencioso, sincero, sentimental” e do outro lado vejo muitos que traem, tratam mal, não dão a mínima importância e estão sempre com alguém completamente apaixonado e obcecado os seguindo. Minhas amigas se justificam: “Não quero homem bonzinho do meu lado, no fim ele acaba sendo um bobo”. Parece que quanto mais eles pisam, mais as garotas gostam deles.

Me enquadro num tipo que considero raro, fiel, romântico, sonhador, leal, alguém que crê no amor apesar de toda banalidade do mundo moderno atual prega, e talvez me encaixe nesse papel do qual elas chamam de “Homem Bonzinho”. Tenho como grande maioria amigas mulheres, cresci ouvindo que elas queriam que os homens fossem assim e no fim percebo fui bobo por acreditar, pois em muito casos as mulheres que eu desejava escolhiam os canalhas.

Definição de Canalha segundo o dicionário Fabricélius:

 

- Aparenta ter força física acima da média, “bombado”
(bom para mostrar para as amigas);

-
Nada romântico e não acredita no amor verdadeiro;

-
Trata suas garotas como se fossem apenas mais uma;

-
Imprevisível, faz o que quer e quando quer;

-
Nunca liga no dia seguinte;

-
Arrogante, se impõe tratando opinião alheia com desdém;

-
Normalmente não quer namorar e quando aceita, trai;

-
Se preocupa com a quantidade de transas e não com a qualidade da relação.

 

 

Me debrucei sobre tal incoerência para procurar entender e cheguei às seguintes suposições:

Hipótese 1

As pessoas se machucaram no passado por acreditar que alguém era especial ou que era um ser ideal e por fim se deparam com uma pessoa totalmente diferente, que as abandonou as fazendo sofrer. Repetem então o jargão “Homem é tudo igual”.
Passam a não querer mais se envolver sentimentalmente e optam pelo tipo canalha, fácil de jogar fora, que já lhes garante que não haverá futuro.
Portanto, os canalhas têm uma série de características que atraem algumas mulheres e mesmo que elas saibam que a chance se machucar é grande, elas não ligam. Preferem correr o risco , elas se excitam justamente com a iminência de ter alguém descartável.
(Esse é um tema que vou retomar em outro texto, mas fica por hora como uma teoria.)

Hipótese 2

As mulheres competem muito umas com as outras, mas tem internamente uma disputa maior consigo mesma, elas precisam sempre se superar.
O dito “bonzinho” é um homem pronto, alguém para se casar, ter filhos depois de uma longa jornada de experiências arriscadas, ele é o grande prêmio. Aparentemente perfeito para uma vida pacata e tranqüila, parece não haver mais grandes desafios além dos de se relacionar.
Já com canalha há muitas provações, primeiro de conquistar aquele que todas amigas desejam e não conseguem, depois de transformar esse homem no “bonzinho” e se sentir vencedora por moldar alguém para o seu tão almejado ideal.
Essas mulheres em particular, buscam no outro a razão para elevar sua auto-estima, pelo pré-suposto que a aventura e a luta por mudar alguém as fazem mais mulher.
Outro exemplo disso são as mulheres que beijam homens gays, elas tem a necessidade de ficar alguém que deseja um sexo oposto ao delas, apenas para provar para si que elas são capazes de conquistar quem quiserem e pior, de talvez converter alguém em hetero (como se isso fosse possível) .
Visto pelos os outros, o dito canalha, aparenta fortaleza e proteção, mas intimamente as mulheres sabem que eles não são perfeitos. Muito pelo contrário, normalmente tendem a ser profundamente inseguros e dependentes de aprovação externa, motivo pelo qual elas também se vêem engrandecidas por se sentir como o lado forte da balança e os escolhem para suas relações.

Friso que são apenas hipóteses, existem mulheres e mulheres. De outro ponto de vista, nem sempre as pessoas querem ter tudo que desejam de mão beijada.

O que as mulheres desejam realmente são emoções fortes. Isso sim atrai qualquer ser humano, não importa se é sacana, grosso, bonzinho, confiante, atencioso, canalha , compreensivo ou bom amante. Desejam drama, imprevisibilidade, términos, reconciliações, um relacionamento com vitalidade. Claro que sem abrir mão de todo afeto que uma boa relação merece.

Para a grande maioria há uma questão de escolha e existe sim algo muito melhor do que os canalhas, porém normalmente os homens também só conseguem chegar a nesse estágio muito mais tarde que as mulheres. Porque ter relações monogamicas, saber cuidar, aceitar defeitos e qualidades, amar verdaderiamente, se permitir, respeitar e conquistar diariamente a mesma pessoa é para poucos.

01 Jun

Se Mate

Publicado em Matérias

Saiu do carro tão rápido que quase atravessou a porta, desejou voar só pra não ter que esperar o elevador, a alteração é visivelmente notada, sua respiração ofegante denunciava que não dominava mais sua consciência. Deslizava nos corredores, aos trancos pulava de dois em dois os degraus, entrou em casa esbaforido e ligou o computador. Seu amigo estava online, sem nem mesmo dizer “Oi” começou a vomitar palavra no seu teclado:

- Tá decido, de hoje não passa...

- O que?

- Está me incomodando de mais, eu já agüento mais, fica martelando na minha cabeça o dia inteiro, me botando pra baixo como seu eu não fosse nada...

O amigo do outro lado lotou a tela de interrogações e tentou continuar, como não sabia o que escrever, teceu uma filosofia de folhetim, das mais baratas.

Antes mesmo de ler se dirigiu até o banheiro e se encarou no espelho por alguns segundos, mas não se via. Foi á sala, deitou no sofá deixando a TV falar sozinha, percebeu que em cada cômodo que entrava a culpa lhe perseguia. Se sentia incoerente, não podia acreditar que chegara ao auge da unificação entre amor e ódio. Na pia da cozinha lavou o rosto e quando viu seu reflexo distorcido no azulejo, tomou a decisão.

Voltou ao computador e digitou freneticamente:

- É agora!

- Do que você está falando? Não estou entendendo nada...

- Vou me matar! Não suporto mais essa dor e nem o que me tornei. Cansei de estar condenado a ser possibilidades não realizadas .

- Hey para de dizer bobeira!

- Não acredito mais no sentido que dei à minha vida, ou do sentido que me foge, preciso adquirir um modo de viver, mais apropriado, mais autêntico e justo comigo.

Nessa visão, confronto o absurdo e estabeleço o desejo de viver só quando puder ver um sentido maior no sofrimento. Decidi, vou aniquilar de vez essa minha forma de viver, serei diferente a partir de agora, chega de me lamentar para o travesseiro, basta de engolir as palavras e não mostrar para as pessoas o que sinto.

Existem pessoas que tem em mim uma influencia definitiva, muita coisa de minha vida foi construída em cima daquilo que me deram pra viver e por motivos diversos mau vejo essas pessoas, quando estou diante delas não sei nem o que dizer. Verdadeiramente existem pessoas que surgem para mostrar o que é ideal, de comportamento, de ser humano e me influenciam pelo exemplo, não pelo quão imperativo poderiam ser.

Hoje em dia as coisas andam tão esquisitas que tenho receio de dizer para as pessoas o quanto gosto delas, aí invento milhões de desculpas... Que não sei mais dizer, que não encontro maneira de dizer, que tenho vergonha, que estou muito ocupado e um dia, quem sabe, vou arrumar tempo pra fazer algo junto. De repente me dou conta que há mais o que fazer, não da mais tempo, é tarde e deixo as pessoas partirem.

Desse momento em diante aquele que começou a conversa não existe mais, quero aproveitar cada comento, chega de fazer das minhas redes sociais uma prateleira de amigos, chega de dizer que estou cansado, que não tenho tempo, vou gozar da minha companhia e da de quem mais quiser me acompanhar, vou me namorar, descobrir o que é meu nessa vivencia como outro, vou sair, dançar, rir e chorar. Viver tudo e não deixar que ninguém mais me anule ou me ofusque, principalmente eu mesmo!

Que esse suicídio, do que fui até então, não seja uma forma de morrer e sim tentativa desesperada de buscar vida, brincar com minha habilidade de quase ir e vir, fazer com que me sinta digno de estar vivo, descobrir dentro de mim um deus e assim despertar pra um novo caminho a ser trilhado, porque estou aqui de passagem, para melhorar e acrescentar algo de bom pra mim e para as pessoas que cruzam meu caminho.

Será que de tudo há concordância ou não na a minha maneira de encarar as coisas?

- Talvez, mas ao menos você já sabe o que não quer ser e isso sim pode mudar o sentido de sofrer.

- Sei que ao dormir vou morrer novamente e que amanhã ao despertar vou continuar procurar um novo eu, pois minha necessidade de viver é que me mata.

15 May

Tô Passado

Publicado em Matérias

Como é fácil olhar para traz e se deparar com um lugar perfeito, contente, sem dor, onde tudo era melhor que hoje. “Ah que saudades daquele tempo, eu era feliz e não sabia”.