Beto Capelupo

Beto Capelupo

Crescemos com a obrigação de sermos corajosos. Desde crianças aprendemos que é preciso
enfrentar o medo e desafiar os obstáculos. Para os meninos a cobrança é seletiva: Quem não
é corajoso, é marica, mulherzinha, não merece viver entre os fortes – os machos, que é
como aprendemos desde cedo a identificar os valentões.
Aprendemos ainda que para ter coragem é preciso ser agressivo sempre, e aí a coisa pega:
acabamos confundindo agressividade com agressão. Ao invés de agressivos, nos tornamos
agressores...

É difícil para o homem aprender que a coragem é uma virtude feminina. Crescemos
acreditando que a nossa índole é a de procurar sempre a conquista. Nossos presentes
natalinos desde cedo, trazem fortes componentes de violência – somos alçados a condição
de mocinhos, cowboys, policiais, paradigmas do que nos devemos nos transformar quando

adultos, e aprendemos que trazer justiça ao mundo... Só na base da porrada.Ser corajoso
torna-se “ser forte fisicamente”, senão com os braços, pois a natureza às vezes nos faz
mirrados, pelo menos com armas e artefatos bélicos.

Somente depois de muitas surras da vida é que conhecemos o lado mágico da coragem.
Aprendemos – aqueles que se posicionam dispostos a aprender, é claro – que ter coragem
é cobrar-se o tempo todo. Realizamos que é preciso coragem para mudar, para acertar os
erros, para se descobrir ignorante. Àquela virtude que chamamos fraqueza boa parte de
nossa vida, descobrimos com a experiência que é nosso maior desafio – ser dócil e pacífico
é qualidade de gente forte, gente corajosa.

Até para aprender precisamos de coragem. Coragem para revelar ao mundo os erros
cometidos, as opções erradas e as escolhas precipitadas que escolhemos.
Para os que preferem Rambo ou Indiana Jones como modelos de coragem e astúcia a serem
perseguidos, a vida sempre dá uma segunda chance. Mas é preciso humildade para entender
o recado...

17 Mar

Remordere

Publicado em Matérias

Uma dor que revela nossa impotência diante do que poderia ter sido e acabou não sendo, algo que dependia fortemente de nossa ação no passado e que hoje nos coloca como grandes culpados pelo desenlace infeliz. Não ter feito, ou ter feito alguma coisa de forma diversa, causa em nós esse trágico desconforto a que chamamos remorso.

Como toda palavra, essa também tem sua raiz. Brotou do latim, do verbo “remordere”, “tornar a morder”, o que nos impede a compreendê-la como um ato doloroso em essência. Ter remorsos, portanto, é dilacerar-se, tortura a que nos submetemos quando não conseguimos fechar nossas contas com o passado. Quando o vivido e o lembrado não se entendem, o coração se põe a morder, a ferir, a atormentar nossas lembranças – por que não fiz de forma diferente? Porque disse tal coisa, quando o silêncio era a melhor postura?

Há uma diferença entre remorso e arrependimento, outra palavra que sempre nos assoma a mente quando nos debruçamos sob os erros cometidos: O remorso é uma impotência. Ele voltará a cometer o mesmo pecado. Apenas o arrependimento é uma força que põe termo a tudo.

Eu prefiro apartar estas duas sensações: sentir remorso, independente do pecado cometido, não implica necessariamente num ato de contrição. Muitas vezes sentimos e pronto, e o próprio sentir já nos serve de remédio e alívio para as feridas da alma. Certa vez ouvi da minha amiga Renata o seguinte: “Se uma pessoa procedeu mal, arrependa-se, faça as reparações que puder, e trate de comportar-se melhor da próxima vez. Não deve, de modo nenhum, pôr-se a remoer suas más ações. Espojar-se na lama não é a melhor maneira de ficar limpo.”

 

O perigo do remorso está em justamente buscar a cura instantânea do arrependimento, quando muitas vezes arrepender-se não guarda qualquer relação com o que somos e o que queremos vir a ser. Ao invés de nos tornarmos melhores, acabaremos por retornar ao rebanho, tangido pelas varas dos bons costumes.

Infinita Simplicidade

 

A gente vai levando a vida a ceder quando não devia, a se frustrar quando poderia fazer diferente, e o tempo todo nos enganamos a acreditar que sempre existirá uma desculpa plausível para deslizes assim. O espaço que cedemos é progressivamente ocupado por sentimentos que nos são estranhos, até que um dia nos descobrimos presas de uma armadilha que insidiosamente armamos para nós mesmos.

Não há culpados em situações assim. Tivéssemos optado por sofrer no atacado ao invés de preguiçosamente optar pelo alívio momentâneo e fugaz, e estaríamos hoje mais inteiros. E íntegros! Teria sido uma maneira honesta de oferecer a quem reparte a vida conosco – seja como amigo, parceiro ou parente -, a chance de poder investir na mudança do seu destino e se tornar alguém melhor.

Da mesma maneira que resultamos piores por causa das escolhas erradas que fazemos na vida, nós conseguimos melhorar a cada vez que oferecemos ao outro a opção da mudança. Para quem acredita que a vida só faz sentido se repartida como um bem comum, mudar é mais que obrigação, é uma necessidade.

A vida é complicada, mas paradoxalmente é constituída por infinitas simplicidades... Se conseguíssemos ser simples a ponto de fazer apenas aquilo que fizesse bem a nossa consciência, a reunião destes pequenos gestos criaria a nossa volta um imenso e luminoso campo de energia.

Gente assim é gente de bem com a vida. São pessoas assertivas, que não admitem trair sua consciência apenas para agradar o outro; preferem o desconforto passageiro de um necessário e sincero não, à aflição prolongada de terem sido injustas consigo mesmas.

Por isso raramente machucam.... nem a si, nem aos outros.

Não sei a quê atribuir esta vontade de sentir-se melhor ou acima dos demais que parece ser a marca dos novos tempos. Já tentei imaginar que a competitividade maluca que perpassa o mundo e seus negócios fosse talvez a mais plausível das explicações. Mas me parece pouco e simples demais e assim desisto de conjecturas, dou de barato que o sintoma existe e me libero da responsabilidade de explicá-lo.

Ele existe, ponto, e pode ser detectado em mínimas ações cotidianas. Manifesta-se quando alguém decide que os elevadores devem ser divididos não pela funcionalidade, mas pela condição social. Surge quando alguém se imagina detentor de uma rua ou uma estrada simplesmente por ter um carro mais caro, o que lhe dá até mesmo o direito de desrespeitar as mais comezinhas leis de trânsito. Explode quando não admite que seu filho reparta o mesmo espaço de um brinquedo com uma criança pobre...

Mas a manifestação desta “síndrome de superioridade” é ainda evidente – apesar de não mais vergonhosa – quando ocorre no ambiente profissional. Convencionou-se que vencedor é aquele que ganha muito bem, possui determinados objetos de consumo, freqüenta locais públicos eleitos por outros vencedores, veste certas indumentárias, possui cargos e funções de relevo... Uma série de posturas que compõem uma espécie de “código do vencedor”.

Aguçados pela competitividade amalucada, homens e mulheres são obrigados a assumirem determinados comportamentos se quiserem trilhar o caminho do sucesso. São obrigados a aceitar como normal a tese de que para poucos vencerem, muitos têm de ser sacrificados, deixando de lado sentimentos sublimes como compaixão, paciência, amizade...

Mas o que me incomoda, de fato, é que no fim das contas somos levados a aceitar com naturalidade que para ser vencedores temos necessariamente que nos tornarmos pessoas piores. Pra essa gente, o sucesso é ser infeliz.

21 Dec

Desesperar Jamais!!!

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Pode parecer inevitável, mas existe sempre a opção “não desesperar”. Aperte o botão.

Já se passaram duas semanas da data de entrega do texto. São 11h da noite, e o que eu mais queria era dormir, mas não vai dar. Também preciso escrever alguma coisa no blog, que há muito tempo não vê um texto novo. E ler aquele e-mail urgente que chegou a semana passada. Não posso deixar de imprimir aquele artigo sobre comunicação de marketing antes da aula de amanhã.

Ainda não marquei o almoço que eu prometi para o João Rafael. Tomara que ele ainda se lembre das coisas que queria me contar. O cartão com o telefone estava em cima da mesa. Quando é que vou terminar de arrumar as gavetas do escritório? Ah, e não posso deixar de escrever um recado pedindo para a Dona Sonia não mexer nas pilhas de papéis no chão, por misericórdia.

Fiquei devendo para o vizinho aquela pesquisa sobre a coleta seletiva aqui no bairro. Se eu não preparar hoje o seminário de quarta feira, não preparo mais – amanhã ou depois não vai sobrar um mísero espaço de tempo. Tenho que marcar logo o dentista antes que o dente quebrado não tenha mais conserto. Será que eu mandei todas as roupas que eu precisava para a lavanderia?

Nossa, essa parede está horrível. Não sei o que faço primeiro: pintar, comprar um adesivo, uma prateleira nova para acomodar a coleção de filmes. Será que eu mando fazer uma cortina ou instalar uma persiana? É ridículo ter tudo isso de relógio se eu não uso nem metade. No próximo bazar da empresa já tenho o que doar.

Anotações mentais: ligar para a Heloísa (sobre empréstimo), passar as fotos da câmera para o computador, colocar a mensalidade do curso de pós-graduação em débito automático. Pedir roupas usadas para as meninas do projeto de Belo Horizonte customizarem.

Dúvidas: tomei ou não tomei o remédio de homeopatia? A que horas mesmo começo a reunião amanhã? (onde será que eu anotei o endereço?).

Já passa das 11h40 e perdi o sono. Eu disse para o pessoal do Mundo Diversidade que ia fazer um texto sobre sexo seguro, mas vou deixar para o mês que vem. Prefiro escrever sobre minha maior necessidade no momento: não desesperar. As gavetas, os papéis, as contas, os e-mails, as paredes, as janelas, os amigos, o namorado, a grana, o trabalho... Embora pareçam se encontrar todos em uma festa ruidosa dentro da minha cabeça, cada um tem sua hora e lugar. Calma.

O coração fica apertado de aflição, o peito parece estreito como uma porta entreaberta, mas cada problema tem sua hora e sua vez. Agora só preciso ter uma preocupação: escrever. Depois, dormir. Depois, resolver uma coisa de cada vez.

Por mais complicada e difícil que seja a vida, a opção “não desesperar” está sempre presente no menu. Vou apertar esse botão e fazer o que for possível. Daqui a um, dois, dez ou 90 dias, estarei deitado numa rede lendo um livro e todos os motivos para o desespero serão fantasmas distantes. Porque me deixar assombrar por eles agora?

Não desesperar. A vida não fica mais simples, mas fica menos difícil.

15 Dec

De Braços Abertos

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O que nos impede de nos atirarmos com confiança e alegria para as experiências do mundo? Porque temos tanto medo de nos entregarmos num relacionamento. E, mais que tudo, será que dá pra mudar esse nosso eterno pé atrás com a vida?

Faz de conta que você é um trapezista e está numa plataforma a 20 metros de altura esperando sua vez de se lançar no espaço vazio. Você se preparou, fez vários treinos com e sem rede e sabe que pode contar com seus companheiros que estão ali do outro lado. Naquele centésimo de segundo antes de se jogar, tudo o que você precisa fazer é encher o peito de confiança: em si mesmo e, principalmente, é claro, nos outros. Você inspira fundo, toma impulso e vai como se fosse possível voar sem asas e desafiar a lei da gravidade para sempre naquele curto espaço de tempo. E, quando inexoravelmente começa a cair, alguém pega com vontade nos seus pulsos e o traz de volta para aquela coreografia impossível e bela sob o céu colorido de um picadeiro.

Uma das cenas mais bonitas entre pais e filhos é ver uma criança correr de braços abertos em direção ao seu pai e sua mãe para se jogar neles com a maior felicidade. Ela sabe que vai ser amparada e acolhida com segurança e amor e por isso não tem a menor dúvida. Isto é, ela tem total confiança na vida. E o que faz alguém se lançar no mundo com essa mesma coragem, determinação e alegria? A confiança.

A própria palavra confiança tem em si mesma o segredo de como ela nos dá essa força, que nos permite ultrapassar nossos próprios limites e medos para acreditar na begnidade da existência. Confiar significa “com fé”. Agente pensa que a fé pertence ao universo da religião, que está apartada da vida comum, mas isso não é verdade. É a fé que nos preenche o coração na hora de nos atirarmos num projeto, nos entregarmos em relacionamentos, perseguirmos um objetivo. Não se pode saborear plenamente a vida sem fé. Ela é nosso mais poderoso catalisador de energias.

Vamos voltar para o exemplo da criança que se atira nos braços de seus pais. Logo, logo ela vai perceber que o mundo não é tão generoso e seguro quanto esse braço reconfortante, que, se estiver de peito aberto, pode se ferir. E aqui vamos encontrar o principal motivo da perda de confiança, o medo da dor. De se apaixonar e não ser correspondido, de se entregar e ser traído, de ver um segredo caminhar por ouvidos e bocas de quem não deveria, de imaginar no que os outros vão falar se eu aceitar mudar de emprego, ou se aceitar abandonar a estabilidade que tanto falam que tenho. De arriscar trocar uma relação por outra e depois perceber que o que te completava era exatamente aquilo que você abandonou.

Mas o que dizer se realmente agente foi muito machucado durante a vida? Como voltar novamente a confiar no mundo?

Isabel (nome fictício) sofreu um ataque sexual aos 16 anos, na saída da escola. Foi muito traumático pra ela. A mãe nunca soube de nada (nunca contaram a ela por causa de sua rigidez e intolerância), mas o pai decidiu, de comum acordo com Isabel, que era melhor a jovem viver algum tempo em outra cidade. E assim ela foi para a casa de sua avó Güeli, num pequeno vilarejo no Rio Grande do Sul. O casarão ficava entre parreiras de uvas negras muito doces e pés de pêssegos. Em seu quarto, todos os dias haviam flores frescas no vazinho do criado mudo, deixadas silenciosamente pela velha senhora. E Isabel tinha prazer em ouvir as saborosas histórias da vida da avó Güeli à noite, que a faziam rir, sonhar e ter fé novamente na belevolência da existência. Ficaram amigas, profundamente amigas: duas mulheres, uma velha e outra jovem, que tinham a exata perspectiva do que haviam passado, tanto sofrimentos quanto alegrias. “Um dia minha avó me disse que eu era uma pessoa muito especial, que faria escolhas especiais na vida, e que por isso poderia ajudar muita gente, compartilhando minhas experiências, tantos as tristes quanto as alegres. Com essa frase, ela me deu a permissão de ser novamente eu mesma, do jeito que eu sou”.

As vezes temos a sorte de termos uma avó Güeli para nos curar. Mas, se não tivermos, também podemos fazer isso a partir de nós mesmos: reaprender, aos pouquinhos, a nos presentearmos com pequenos prazeres, apostar de novo em nossos sonhos e ideais, descobrir novos talentos e dar um voto de confiança ao futuro.

Quem confia se sente seguro e tem fé na vida, não importando o que vai acontecer. Prepara-se física e psicologicamente, tem ajuda ou pede por ela, treina muito e, como Zorba, o grego (do clássico do cinema), depois do baque inicial, é até capaz de dançar com um sorriso sobre o próprio fracasso. Sinceramente, talvez você e eu ainda não tenhamos chegado a esse ponto verdadeiramente invejável. Mas tenho certeza de que, com um pouco de prática, entrega e abertura, ainda chegará o dia em que finalmente teremos coragem de chegar na pontinha da plataforma do trapézio, contemplar o ambiente e nos atirarmos. Com muito mais confiança.

02 Dec

Minhas Testemunhas

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É bom ter alguém para ver o que a gente faz. Mas, a gente tem de se olhar também.

Se uma árvore cai no meio da floresta e não há ninguém para ouvir, a queda faz barulho? Se você não ficou intrigado com a pergunta, pare e pense um pouco. O que é “barulho”? É a impressão resultante da vibração do tímpano transmitida aos terminais nervosos do cérebro – o que, para mim, já é bastante intrigante. Agora, a queda da árvore faz barulho se ninguém puder ouvir?

Quando penso sobre isso, chego a conclusões diferentes a cada instante. “Claro que faz! O barulho está lá. Se houvesse alguém para escutar, escutaria”. “Claro que não. O ar se movimenta, mas não se transforma em barulho”.

Mas não foi por isso que a frase me ocorreu, mas sim porque estive conversando com meu amigo Rodrigo sobre a necessidade que a gente tem de testemunhas – de nosso esforço, sinceridade e sentimentos.

Estar apaixonado, por exemplo, é querer contar pra todo mundo. Contar para a melhor amiga, rabiscar na lousa do colégio, machucar a pobre da árvore com o nome do ser adorado. Compor uma canção, pendurar uma faixa na porta de casa ou avisar mil pessoas pela Internet. É gostoso dar bandeira, deixar que vejam a foto dele ou dela na carteira (“já te mostrei Rubinho?”). Também vale para filho, neto, sobrinho.

Meu momento favorito nas cerimônias de casamento é quando o casal faz declarações de amor e compromisso diante dos amigos e parentes. É gostoso ouvir e falar na frente dos outros. Por que será? Cada um houve o barulho do vento ou as notas de uma música de um jeito. Cada observador guardará uma lembrança diferente. Mesmo sabendo disso, ansiamos por outro (ao menos um!) que confirme e reforce nossas impressões – inclusive a impressão que temos de nós mesmos.

Parece que nada existe se não for percebido por alguém. Precisamos de uma testemunha que confirme: “Sim, ele gosta de você, você também tem um brilho diferente nos olhos”. “É verdade, você se esforçou bastante”. “Você sofreu um bocado, pode chorar”. É bom ser também essa testemunha – do esforço dos filhos, do sentimento dos amigos. Ouvir, reconhecer, confirmar. Sem esquecer que em algum momento estaremos sozinhos. Ou que há lugares, no fundo da nossa mata escura, em que ninguém consegue entrar.

Então é preciso confiar em nosso próprio testemunho, exercitar o olhar atento e honesto para aceitar nosso reconhecimento. Que solidão insuportável quando não nos ouvimos.

18 Nov

Eu tenho

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Eu tenho...
... defeitos difíceis de confessar, especialmente a inveja.

Tempos atrás recebi cumprimentos por ter dito, durante uma apresentação em sala de aula, que tenho inveja. (É bom deixar claro: não fui cumprimentado por ter inveja, mas por ter dito). O tema da discussão era “defeitos que as pessoas não gostam de confessar” – em contraponto aos populares “sou perfeccionista”, ou “acredito demais nas pessoas”. Não queria mostrar esse meu lado horrível, mas era essa a idéia.

Minha inveja já foi muito pior, mais violenta, e me fazia sofrer amargamente. Não a ponto de desejar mal para alguém, torcer para que alguma coisa desse errado. Mas volta e meia me pegava pensando com raiva, com amargor: “Por que não eu?”; “Eu também quero!”

Na faculdade morria de inveja de quem não precisava chegar correndo do trabalho na aula. Quem podia escolher o que fazer: ficar no Centro Acadêmico, dar uma passadinha na biblioteca, comer um lanche, olhar o mural de avisos. Ah, como eu queria... Como me incomodava alguém ter o que eu não podia.

Eu me torturava com as festas perdidas, as viagens não feitas, as turmas que não me incluíam. Parecia que o evento perdido tinha sido o mais divertido de todos os tempos – e, até sem perceber, eu tentava desvalorizar o que não estava ao meu alcance: “Ainda bem que eu não fui, detesto gente bêbada”. Ás vezes tentava outra estratégia. Quando me consumia em um pensamento do tipo “ela vai para a Europa pela terceira vez e eu, como sempre, vou pegar o ônibus para o interior paulista”, tentava transformá-lo em orgulho: “Imagine, ela nunca vai saber o que é ver as estradas viajando de ônibus. Não conhece esse lado da vida”.

Inveja é um sentimento ruim. Não creio que faça mal a quem é objeto dela, como reza a crença popular, aquela coisa da “secada” ou mau-olhado. Faz mal ao sujeito da inveja. Envenena, intoxica, corrói. E, embora ela seja tão incômoda, é dificílimo reconhecer sua presença. Inventaram agora até outro termo: “ai amigo, é inveja branca”. Racismo até no sentimento agora? Outras emoções aflitivas gozam de certo prestígio: raiva, ciúme... Sentimentos que as pessoas dizem “eu tenho sim”. Eles têm defensores, até (“o ciúme é o tempero do amor”). A inveja não, ela é condenada em adesivos: “É uma m*”. “Não me inveje, trabalhe”. Quem quer dizer que tem?

Admitir é um grande passo. Quando reconheci que o “sentimento de injustiça” que me movia era, no fundo, inveja, comecei a brincar com ela. Confessar a dor-de-cotovelo a tornava menos latejante. Até os mestres budistas admitem que sentimentos assim surgem na mente – só que eles conseguem não dar bola para eles. Não usam esse combustível. Será que alguém é completamente livre da inveja?

Saber que tenho inveja não deveria servir como muleta. Bom, se aliviar o sofrimento, tudo bem, mas acho melhor mesmo tentarmos não dar corda pra ela. E entender quando os outros têm inveja da gente. Ah, sim, e cultivar uns antídotos: olhar um cachorro deitado ao sol e pensar “que bom que ele tem esse momento de prazer!” (começar com bicho é mais fácil). Ver uma casa linda e imaginar: “Ual, que legal deve ser morar ali. Olha aquela mulher lendo um livro na varanda, que bom, ela está feliz”. Não é fácil, mas com o tempo, faz efeito.

23 Sep

Rir de Si Mesmo

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Tinha sido um dia horrível. Tenso, cansativo e frustrante. Para não chegar em casa com a cabeça ainda fervilhando com o “replay” dos problemas do dia, a moça dividiu um táxi com o moço do trabalho, testemunha e companheiro de infortúnios. No caminho, conversariam até gastar toda a vontade de falar.

Disseram o destino ao motorista – ela ficaria na rua Alagoas no bairro de Higienópolis em São Paulo, e ele seguiria mais um pouco, até o Shopping logo adiante. “O trânsito está horroroso”, avisou o taxista. “Então vou fazer um caminho alternativo, tudo bem?”.

Claro que tudo bem. Parados no congestionamento ou costurando por um trajeto mais longo, teriam tempo de sobra para praguejar, protestar, dar vazão a indignação. E assim ficaram tão entretidos que nem prestaram atenção no caminho.

Toca o celular dele. A namorada pergunta onde está. “Na Juscelino, perto do túnel do Ibirapuera”. Ela não entendeu nada. Era como ir de São Paulo a Curitiba via Belo Horizonte. “É um caminho alternativo por causa do trânsito”. Continuava não fazendo sentido. “É um caminho super alternativo!”, ele insistiu, sem pensar muito na estranha escolha do taxista. Não estava a fim de mudar a sintonia da preocupação; importante era concluir a conversa sobre o trabalho. “É, assim que foi feito”, encerrou a ligação, desajeitado.

Retomaram a conversa, mas a amiga não conseguiu ignorar a esquisitice do trajeto. A namorada dele tinha razão. Que diabo de alternativa era aquela? Por pior que estivesse o transito pelo caminho mais curto, aquele era injustificável. Será que eles estavam sendo tapeados? Criou coragem: “Como o senhor vai chegar daqui até o Higienópolis?”.

“Higienópolis?” Coitado do motorista. Em vez de “Alagoas” tinha entendido “Borges Lagoa”, do outro lado da cidade, - e que também fica perto de um Shopping. Ficou mortificado. Pediu tantas desculpas, fulminado de vergonha, que os passageiros nem ficaram aborrecidos. Tentando recuperar o tempo perdido – impossível -, levou-os, enfim, para “Alagoas”, firmemente disposto a não cobrar nada pela corrida. Mas eles fizeram questão de pagar o valor estimado pelo trajeto normal.E se despediram, dando risada.

Podiam ter ficado ainda mais estressados, mas o efeito foi contrário. Afinal, tiveram tempo para fazer uma “descompressão” e chegaram em casa com uma história curiosa para contar. Agora, quando deparam com alguém tentando defender uma solução esdrúxula para um problema, lembram-se da história. Ou quando eles percebem que eles mesmos estão trocando as bolas (ou as “lagoas”). Porque o engano foi do motorista, mas a resposta nonsense foi dele...

Rir dos outros, em vez de se enfurecer com eles, pode ser bom, mas ser capaz de reconhecer, corrigir e rir também das próprias bobagens é ainda melhor.

01 Sep

A Máquina do Tempo

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Retomando o eixo da vida, sem carregar o peso do que ficou para trás.

Para começo de conversa, quem nunca experimentou o gosto do fracasso, das duas uma: ou nunca fez nada na vida e, portanto, jamais se submeteu à possibilidade do fracasso, ou é um super-homem infalível. E sinceramente, neste caso, eu acreditaria mais na primeira hipótese.

Ninguém é infalível, portanto todos estamos expostos à possibilidade do insucesso, e ele aparecerá, acredite, porque está escondido em alguma curva do tempo. É só aguardar. Por outro lado, o fracasso eventual é até útil, pois faz parte do processo de crescimento, aprendizado e aprimoramento pessoal. Ouso dizer que até sinto pena de quem nunca fracassou, pois perdeu uma excelente oportunidade de se transformar para melhor.

Fracasso representa um fato e significa o mau êxito do mesmo, mas também é o nome que se dá a um sentimento, aquele peso que se percebe no peito quando algo não vai bem e nos culpamos por isso. São fenômenos correlatos, mas independentes. Você pode ter tido um tremendo insucesso e não se culpar por isso, olhar para frente, utilizar o acontecido como aprendizado e partir para outra. Da mesma forma, você pode ter atingido o objetivo desejado, ser reconhecido por todos, mas conviver com a sensação de que algo está errado. Ou você poderia ter feito ainda melhor, ou o sucesso dependeu menos de você e mais da sorte, ou, ainda, você ganhou a batalha, mas era a batalha errada. O sentimento que deriva dos erros e dos acertos é, portanto, relativo. Repito, com a insistência dos chatos, mas também dos convictos: o que interessa é o que você faz depois. E, para isso, ás vezes é preciso visitar o passado para verificar onde foi que a engrenagem do destino emperrou.

Voltar no tempo é uma fantasia divertida e útil, por estranho que pareça. É útil porque nos obriga a refletir sobre o que gostaríamos de mudar em nossa jornada, portanto, em nós mesmos. A boa noticia é que, nesse sentido, a máquina do tempo já existe, é barata e acessível a todos nós: é a nossa própria consciência. A percepção saudável da realidade permite que façamos uma conexão lúcida entre as experiências presentes e o significado do passado. Parece complexo? Não é tanto assim.

Então, atenção – o passado não deve ser compreendido apenas em seus próprios termos, mas também em termos de percepções do presente. Portanto, alterações na experiência presente modificam o significado do passado. Como assim? Deu “tilt”? Então preste atenção: à medida que amadurece, o ser humano vai transformando a maneira de ver o mundo, pois sua escala de valores sofre modificações naturais. O que parecia ter importância aos 17 anos, aos 32 pode parecer ridículo. E vice-versa.

Obedecendo ao mesmo raciocínio, quando terminamos o colégio, não temos preocupações que passamos a ter quando terminamos a faculdade. Nada mais lógico, pois a idade muda os centros de interesse e, com eles, a importância dos fatos que constroem a realidade que nos cerca. Só que os fatos vividos e não totalmente resolvidos emocionalmente costumam se acumular em nosso inconsciente na forma de recalques, que se manifestam e interferem em nosso comportamento sem que tenhamos consciência disso.

Como falta a noção de tempo, o passado vira presente e nos aprisiona pelos sentimentos que já deveriam ter deixado de existir, uma vez que nossos valores, e os do mundo, mudaram. Costumamos dizer que temos que estar nos atualizando permanentemente, e levamos isso ao pé da letra, mas apenas no mundo profissional, intelectual, tecnológico. Deveríamos também atualizar nossa percepção de nós mesmos, e não apenas do mundo que nos rodeia.

Je ne regrette rien – “Eu não me arrependo de nada”, dizia a pequena grande Edith Piaf. Ela cantou e viveu seus versos mais preciosos: “Minhas mágoas, meus prazeres, não preciso mais deles, varridos meus amores e meus temores, recomeço do zero”. Quanto a mim, é claro que, se pudesse voltar no tempo, procuraria fazer algumas coisas de maneira diferente, assim economizaria algum sofrimento. Como isso não é possível, olho para estes momentos com gratidão, pois sempre – e isso não é força de expressão -, sempre que algo deu errado, um novo caminho se abriu, e este, hoje eu acredito, era melhor.

“Sabe quando você pode se considerar uma pessoa adulta, livre e dona do seu destino? Quando, ao se deparar, frente a frente, com o sucesso e com o fracasso, conseguir tratar da mesma forma estes dois impostores”. Esta frase é uma licença literária do poema “Se”, de Joseph Kipling. Ele chama o sucesso e o fracasso de impostores, pois eles sempre estarão apenas representando. A realidade, a vida como ela é, não tem sucessos, tem momentos de alegria; e não tem fracassos, tem oportunidades de aprendizado.

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